Gaowen atravessou para outro mundo, mas houve um pequeno contratempo durante a travessia. Após pairar nos céus de um continente alienígena por dezenas de milhares de anos, ele percebeu que talvez precisasse de um corpo para ser considerado um verdadeiro viajante entre mundos. Contudo, não imaginava que, ao finalmente obter um corpo, teria de emergir de um caixão e enfrentar duas tataratataratataranetas aterrorizadas. E, além disso, um mundo à beira do término de uma era.
Em um dia, mês, ano e hora indeterminados.
O mundo abaixo seguia como sempre. Na região visível, o céu permanecia límpido, sem vento, nuvens rareavam pelo firmamento.
Gao Wen contemplava silenciosamente aquela longínqua terra, de um ângulo absoluto de superioridade, refletindo sobre o sentido da existência – afinal, nada mais lhe restava a fazer.
Já perdera a conta de quantos anos ou séculos mantinha-se nesse estado, tampouco sabia quem ou o que era agora. Embora ainda pudesse, em linhas gerais, calcular o tempo pela sucessão dos dias e noites, para ser franco – após presenciar tal ciclo dezenas de milhares de vezes, abandonara por completo o desejo de mensurá-lo.
Seria isto, então, uma travessia para outro mundo?
A verdade é que Gao Wen encarava com certa tranquilidade a ideia de "transmigração". Não que possuísse uma consciência transcendental capaz de desprezar vida e morte; mas, na sua existência anterior, ao estar num avião em queda, já compreendera a impermanência das coisas e o quão tênue é a linha que separa a vida da morte. Diante da certeza do fim, qualquer oportunidade de recomeçar, mesmo que em outro mundo, parecia-lhe melhor do que converter-se em uma estatística fatal. O que não lhe descia pela garganta era: por que, após atravessar, encontrara-se flutuando nos céus?
E, o que é pior, flutuando assim por sabe-se lá quantos milhares de anos.
Gao Wen desconhecia a natureza exata de seu estado. Não podia mover o foco do olhar, tampouco sentia possuir um corpo. De fato, à exceção da visão, perdera por completo